segunda-feira, 30 de julho de 2007

O Rabo do Cavalo

Uma história de rabo de cavalo começa assim. Ou, ainda, não começa, por não ter fim. Mas, vá lá: o lado de início, já que temos de iniciar até as coisas sem começo, fica à escolha do leitor, direito ou esquerdo.

Neste -suposto primeiro- lado, uma cócegazinha pousa em mínimo turbilhão. E a lambada do rabo do cavalo chispa ela dali.

Ainda antes de consumada aquela coceirazinha aliviada de pós cócegas, o sistema nervoso do rabo do cavalo -e o rabo tem também consciência autônoma, senão sentimentos próprios! - já prepara a chicotada oposta: do outro lado, uma ou outras cócegas mínimas vibram a impaciência do cavalo do rabo.

Aí está, pois, o moto-contínuo do rabo do cavalo.

Esta história, já bem ou mal iniciada, tem um problema: a súbita necessidade de um objetivo que vá além do simples rabo, envolva o homem. São aquelas vozezinhas sobre os ombros, que freqüentemente encabulam os ditos livres pensadores.

O humano, mantenedor de sua dominação sobre o animal, agora, no seu narcisismo, me chama a enfiá-lo, à força, nesta simples historinha de rabo de cavalo, como se fosse sacrilégio ou divagação um texto de bicho sem sua inclusão, magnânimo.

Então, sou obrigado a inventar uma função de metáfora pro rabo do cavalo... Que vergonha!

Ah, se eu tivesse um rabo na testa, consciente e autônomo como o do cavalo! Meus ombros não ficariam livres das cócegas, mas minhas coceiras aliviadas, entre cada lambada precisa nas vozezinhas, seriam bem mais reconfortantes que as do cavalo…

E talvez não tivesse sempre a tentação de enfiar a cara humana (quando falo) na bunda do cavalo.

O e Umas

O e Uma 1

O e Outro beberão éter no encosto do Santuário, desjeitando-se dos enjeitados santos do lugar, até etéreos. Haverá jogo a assistir. Jogo de bola, gamões de devaneio supratrigonométricos. Esta noite, jogarão pouco, pois mais o éter.

Findouras eras de encosto de O e Outro, já auvorando vapores de fora lá fora, de fora adentrarão duas entidades, uma é Outra e outra é a tal Uma. A primeira instigará substância repelente dos sistemas sudoríparos de O e de Outro. Com catequeses de hálito babento de incongruências hormonais e ideais, grande fuínha pequena de cristas em mola, vã faladora de impropérios babosos, que a Outro surtiria apenas como outro representante dos enjeitados do Santuário, para ele rãmisters, divãs, televisões a éter... Mas para O, a Outra pesaria fardo, caldo grosso de cores gástricas, como marrom com beje...

Entre todo o interim, Uma galoparia por fora, extática na sua retraída epiderme de lagartixa parda, óculos retangulares e boca chamariz. - O: artigo estranhamente definido. O jogaria de mestre, evidenciaria-se nela como que pra pôr cabresto às cores estomacais no vidro déter dOutra ao lado. E nela, nUma, auvoraria na sua torpez - porque este torpor seria feminino, lagartixo - neste fim de era no Santuário. Assim O decidiria. E assim decidirou.

O e Uma trocariam orações: ela evocando seu cristo toxômano, que se expulsou da cruz, desperpendicularizando os eixos da sua cruz; ele evocando sua deusa morta, que o expulsou do paraíso, dando a ele só uma maçã carocenta, e lhe renegando a árvore do saber doía. Simples simbiose de O e Uma, mãos dadas na quedalivre pra trás.

Um pergaminho, já quase sem vida, tirar-se-ia da algibeira por Uma. Uma parte de um evangelho, já apócrifo, reescribido por ela e nunca remetido ao seu antecristo. Fora do Santuário, na sargeta às margens do rio com cágados enfileirados em seu leito, a carta falha seria declamada a O. Durante o recital, nostálgico e os autopesando-se, os dois marginais do rio damor forjariam lágrimas próprias, cada qual com seus métodos e crocodilagens: Uma choraria em compasso aos versos, entonação crescente, tão atonal na voz; O espremeria choro, suco de maçã, conhaque macieira, seqüestrando o odor das palavras doutrém pra sua dor.

De fora pra dentro, do estuário ao Santuário. Do sentimento exorto ao sedimento encosto. E brindariam-se em tims de éter, e relanceariam algumas visões enfunadas de vapor dos jogadores ao redor, só durante curto tempo de goles. Como Outro ainda carteava Outra com seus enjeitos: um beijo entre Uma e O.

Nada mais veriam, a comunhão dos quedistas se daria em tato. Luxúria. O e Uma se coçariam de contrafome, sacrilegando o Santuário, que se ungiria do sacramento pré-gozo. Roçariam as anatomias por mais algumas eras dentro do final daquela. Até saírem à alvorada fora, benzendo transeuntes com seu ininterrupto ritual de fricções.

Na morada de O: na antecâmara, fricções ainda sobéter. No umbral da alcova, Uma surpreenderia-se com o leito: É uma maca! E na maca, Uma já galoparia por dentro. Pelemente, línguamente. Não haveria clímax, só vários. Só gozos secos, de éter. Uma e O escorreriam secos da maca em devaneio. Não findaria em água, café ou cigarro aquela era dO e dUma.

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O e Uma 2

Uma canta. Uma desproporção esquisita de tórax e anca tem esta Uma, comenta O a Outro às costas dUma numa mesa ao pé do encosto do Santuário, numa noite daquelas benévolas benévoas benéteres. A fina polpinha das batatas das pernas comentam-se até os estirados palitos de aquiles e os caracóizinhos-colméia abundam, e até a boca tortinha prum lado no rosto fino e bonito desta Uma pequena, comentam-se, em saltos acrílicos, luzidíos mognozinhos amarelados que sobem deles à anca desproporcional com tórax e face bonita em cachos em cesto, que canta.

Na próxima benoite daquelas, o Santuário já mais torpe em O, o jogo pândego misturando cores, a Uma beija o O.

Os beijos entregalhofam-se enquanto o jogo. O arrasta aquilo com levinhos soprinhos de éter pra que o que cresce, a noite torpeando, o sol já esteando, o tabuleiro desdimensionando, cópulas das cores, linhas estrábicas em negligentes regras no jogo, cópulos desenchendo cúpulas jáfogando. É tudo leviano ali no Santuário dos enjeitados naquela noite daquela.

De lá para na morada de O: nantecâmara afogando os cabelos a O. E numbral dalcova: Uma: maca! E o leito se deita no chão ansioso de desproporcionar-se na pele escuraclara de Uma nO. Uma é animal misto, de couro e lã, marromcombeje e xis, é lontra com aranhanã. - O: artigo estranhamente masculino.

O e Uma se coitam em todos os bichos, se nicham em toda volúpia esportiva, que um O e uma Uma podem se competir sem perder senão o regulamento. Uma maratona O. O deu café e cigarro a Uma e si desta feita.

Mas esta Uma impingiu-se duas: noutra noite daquelas malévolas malefeitas malemá: Numa delas, nantecâmara dO, quandO jazia em luz e fabricava hormônios estéreis em má sua companhia, Uma irrompe no umbral da morada e desanda em susto todo o sistema circulatório e circunflexório dO, que pula de putaquepariu, de fazeroquê, de entraíjáquetaí, de vamtomáchánacama. E de ditos a feitos e distos a istos: suicida asfixia em cabelos, puxafortemeucabeloqueugosto, batechamadevagabunda, prefironão, em tão me leca me. E o torneio de várzea rola a bola entre pernasdepau, findo o tempo regulamentar, faltéter, e o índio ainda quer apito, então tá, menina, então dá e pau vai comê. Agora não há torpez, ou por, não já café nem um cigarro: O aleita-se em repouso não fazendo Uma ver que não vê O não vendo os saltos translúcidos atarracharem-se aos aquiles de mogno e saírem prismar o sol naquela pósnoite banguela.

A Farpa

Um cavaco; filho do atrito. Uma nesga de pau; filha de podre. Aí ovulou mais um espírito atormentado; este, que agora renasce literado. João.

Até aqui, não merecia. Ainda não produzira alcalóides, hormônios, enzimas daquelas que alimentam espaços entre palavras. Até aqui, só leveza leve, beleza leve, pureza leve, natureza natural, bonita e pura. Que não costumam render literaturas.

Mas a farpa.

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João mantinha vida fácil. Daquelas facilidades de que carecem os desiludidos. Vinha petecando de leve alguma felicidade, se isto é palavra que se use. Trinta e dois anos, casado sem amor, ainda amuando; empregado sem dom, ainda domando; dois filhos sem paternidade. Comia rodelas de batata frita com TV, sustentando suspiros, porque sem amargura, adorando quedas de pescoço dos cochilos, porque nunca insone. Beijava a mulher na testa, os filhos nem; usava canetas até o fim, não arrotava.

Nesta tarde, acordou para o conto: percebeu a pequena queloide na lateral do dedo anular direito. Cicatriz minúscula; dos treze anos, concentrou lembrança. O batente do banheiro: passava a mão correndo, tangenciando a saída, toda vez; naquela, lascou-se a lasca no dedo, picada fugaz, como a lambida, e dezenove anos...

João, nesta tarde, morreu sua pureza. À luz um personagem. Mais um batman se carcomendo em devaneio.

Primeira manhã de sua vida, ralhou com a mulher pela missa na TV, domingo. Estalou dentes de ódio, depois da mosca tomada com café. Porém, só não poupou a si da pergunta que lhe oxidava as têmporas - palavras bem marcadas, como acompanhadas cada uma de uma abaixada ríspida de cabeça, de pisões silábicos enfatizando-as: Eu-Não-Dei-Nunca-A-Menor-Importância-Àquela-Farpa-Àquela-Porta-Àquela-Mão-Àquele-Banheiro. Aquilo-Não-Marcou-Minha-Vida. Por quê?!

Pronto, tá lá uma alma estendida no vão. No vão da porta do banheiro, vão do dedo de treze anos. Enfim, o vão; da vida, do João. O vão do verbo.

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Na página, João poderia acabar seu idílio vagando depósitos de entulho, demente, buscando o batente. Ou o contista jogaria trocadilhos do anular do dedo com o da vida, com elos partidos dalguma corrente psicológica; ou do batente com o trabalho. Talvez aludir a arquétipos de filho, ligando infância a paternidade; de casa, banheiro familiar: desarranjo doméstico. Sangue, mão, Freud, pós-modernidade, andropausa... Que tal enfoque fantástico, dadaísta, metafísico ou genético?

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Por favor, olhe suas mãos.

Fábrica de loucos

Num certo sábado, onze da manhã, Lúcia descia a avenida pequena da cidade, desviando olhares de réstias muito quentes de fins de primavera no capô do carro, ia à casa da mãe pegar algum objeto esquecido de véspera, viu Esther na calçada em sentido contrário. Muito amigas. Trabalharam juntas por anos, agora viam-se de passagem, como desta, ou no supermercado, talvez nalguma noite de sábado. Lúcia levantou o quebra-sol do pára-brisa olhos miúdos, em banguela na descida. Sua munheca firme no cumprimento à amiga, coisa rotineira um aceno. Peito colado no volante, e Esther não viu.

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Maneco Afonso criava pombos. Não eram dos correio, eram pombos desorientados mesmo daqueles de igreja, apócrifos em gaiolas num barracão no quintal. Ele mantinha a rotina de cada sábado comprar milho em espigas no armazém da rua de baixo do Quintino. Pombos, milho, pito do Maneco, palha, sabugos, garrafão. Num certo sábado, era inverno não confundir, Quintino mandou essa: Seu Maneco, não tem milho. Entresafra coisa e tal, agora só milho saquinho e de pipoca. Maneco Afonso de ombros, Êta vida!

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Chamavam de Negão ele regozijava, sua mãe foi uma cadela que dormiu na sacristia do padre Amâncio até o fim da vida. Padre Amâncio cuidou da gravidez e do parto, enterrou seus três irmãos no quintal da igreja, mas não podia ficar com ele, já estava velho e reclamavam do Negão ali na santa casa. Negão foi pra rua, andarilhava por toda a cidade, sempre recebendo afeto e restos de comida, até passavam a mão nas suas orelhas. Era onipresente em muitos lugares estratégicos. O bar do João, armazém do Quintino, fim de missa, a praça. Tinha sarna, mas não ligava: Coçar é essencial a cachorros, auto-afirmava-se. Num... outro sábado, as coisas nessas cidades do interior são meio monótonas, levou um teco de cachorro-quente no focinho, sempre adorara isso. Mas sobrancelhas em riste: embrulhou-se-lhe o estômago: Salsicha cortada ao meio com mostarda, pão molhado... ai.

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Tamborilava na mesa de alguém na calçada dum sábado à noite, como todas as noites, todas as mesas, e mandava: Eicucu cucucu! Era o Sempre Livre, o bebum da cidade, cuicando sua cuíca bucal e pedindo samba e cerveja às mesas. Todo mundo sabia, ria e negava. Mas naquele sábado, Estér na mesa mandou o Sempre Livre trabalhar, vagabundo. Ele calou a cuíca, olhou sério, vermelho sumiu da cidade. Foi absorvido pela liberdade de um momento inédito, chamou-se então Lucas. Hoje, Lucas vende chapéus na Praia Grande.

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Negão desiludiu na porta grande da igreja. Ali está até hoje sarnando-se, cabeça pra cá comida que o padre dava, cabeça pra lá água que o padre punha. Aperta pra cá que hoje é missa, práli que alguém casa, mas já rareando esses incômodos. Pouca gente casava e missa só dia santo. Padre Amâncio doeu coração pela mãe do Negão, não olhava fixo em mais nada, alheio à batina, genuflexório tinha rotina desde então. Cartas do bispo amontoam-se da mesa, paróquia deserdada. Também ninguém nem vai, só cultos internos agora nas casas da cidade. Água benta estragou com sal.

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Quintino come pipoca. E tudo mais do armazém, fechado. Nem vê o livro das pinduras de pé dependurado no prego do balcão. Abateu-se nele algo morto, só gosta agora da cor do latão da porta à básculo da quitanda por dentro, e chora. Pelos pombos, pena. Do Maneco Afonso sem espiga, que soltaram-se das gaiolas, mas ainda lá, presos libertos, ou vice-versa com as portinholas abertas. O dono dá restos de comida, arroz feijão e imita seus ronronares no quintal sem fumar.

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Lúcia mora agora com a mãe esquecida da véspera. Nunca passa um dia sem lembrar de Esther, Será que ela não viu?

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Ela subia a avenida da cidade pequena pisa-não-pisa com os buracos da calçada. Estava quente de sol metal, quando viu a réstia do carro da Lúcia que passava pelo seu ombro e não a viu, tropeçou. Esther se virou para espiar se ainda restava-lhe ao menos um retrovisor, mas a amiga cabeça baixa na banguela da descida. Nunca mais saiu nos sábados, ou em outro dia de primavera, ou em nunca mais. Como pôde aquela zinha!, mastiga agora no sofá.

A Fome

A fome. Famélico, morrera de fome, o homem, na beira do prato, lambuzado de tentar de lábios costurados. Nesse último momento, foi feliz, apesar. Enfim, o que apanhava de mãos cheias e, lambão, levava ao rosto, empastando a cara toda - com a violência extasiada de quem o faz com água achada, perdido no mato sedento -, enfim aquela era sua comida.

Comeu, então, contente de boca fechada, comeu com tato e devoção a primeira e nenhuma refeição de sua longa vida magra.

Sempre teve fome, o homem. Tanto que sua débil busca por comida sempre foi ficando mais atordoada conforme a inanição crescia e os pratos que achava, recheios de vazio.

Tudo que alcançava roncando de esforço, seu estômago recusava, rejeitava de impropriedade nutricional. Não eram comida pra ele aqueles pratos escavados - ou deixados ali por boas almas -, alheios de seu teor, encontrados aos cacos nos cantos do labirinto em que se achou, desde sempre, minotauro de pés de homem e cabeça flâmula vermelha aos próprios chifres.

Sempre teve fome. E morrera assim, empanzinado com seu bocado de ilusões achadas, que comia por fora, a morrer de fome, o homem.

Busca ao Pente Fino ou Galinhas Não Têm Esporas

Frederico criava galinhas renascentistas no topo de sua cabeça; ciscando nos tufos pretos e, hora ou outra, perfurando gêiseres no coco para colherem o plasma que as auxiliava na regurgitação dos grãos de milho apanhados esporadicamente quando chovia, elas se atronavam como rainhas na coroa macia do bobo.

Frederico tinha temperamento de filhote felino em casa fechada, pulava de uma atenção para outra, susto para outro, sempre entretido nas diversas concentrações concomitantes, e sempre disposto às alheidades que o borbulhavam para as próximas. Vez em quando, atendia às reprimendas dos céfalo-bicos, que urgiam por um penteado personalizado, frente a espelho, cacarejando ordens, a ele titicas de ordem psicopatológica, desordenadas, mas que lhe pesavam na cabeça e no terreiro social partilhado com o resto das gentes.

Atendia, na ânsia de encontrar uma configuração própria e definitiva para o ninho das galinhas, mesmo estando cansado das tentativas e consecutivas esporadas no coco calejado; porém, sempre usava pentes de dentes muito grossos ou fixadores instantâneos muito instantâneos ou espelhos pouco realistas.

Pronto, primeira brisa mais forte e penas voavam e esporas laceravam sua testa, já cuesta de quelóides. Então, encenava frustradas tentativas de vôo de galinha, evasões de pato, gritos de marreco suicida. Punha-se no poleiro e fechava o bico, esperando alguma garoa para entreter as poedeiras estéreis com respingos de milho, enquanto ele pipocasse idéias caóticas para a próxima investida ao pente.

Frederico criava galinhas modernistas no topo de sua cabeça. Ávidas por um ninho pessoal que atraísse galos de crina verde que as fecundassem seus óvulos murchos que brotassem colombos de duas gemas que em riste dessem piados de ornitorrinco que conquistassem índias puras que deglutissem Frederico e o parissem de cócoras.

Frederico construiu um guarda-chuva para restringir os grãos do céu às galinhas. Previa a revoada natural de quem passa fome, para, coco nu, lustrar sua cabeça pelada e tentar seu brilho próprio. Mas as galinhas retirantes deixaram na moringa suas penas plantadas. Ele, sentindo algo como um alívio apreensivo, uma saciedade sedenta, barriga cheia de vermes, frente ao espelho, embaçado como se depois de um longo banho em lodo morno, desesperou-se ao ver sua cabaça rachar-se em aridez, as penas cada vez maiores por entre as fendas, couro esturricar-se às macroondas do sol da vida das gentes. Correu, galinha diante do automóvel, correu, exaustando-se nos passos bípedes, parando, parando, imobilizando-se num poleiro público com um pé só.

Frederico criava galinhas humanistas no topo de sua cabeça. Agora, imigrante aborígene, dança em círculo, sabugo, a clamar pela tempestade de grãos de milho verde, que afogará toda gente e trará suas galinhas, sem pena, devolta a esporá-lo por um pente fino.

LAO

Eu bato em moscas sempre de dedos abertos. São cinco dedos para quatro vãos. E é por esses que elas sempre se vão.
Eu me concentro pelas bordas. Tenho de ter as unhas sempre cortadas, senão não sou eu quem as roe, mas o contrário: cavoco a cabeça por fora, como se assim pudera aerá-la dentro.
Eu preciso dar um passo irreversível: conseguir dar passos irreversíveis.
Eu gostaria de escrever para viver; mas escrevo melhor o que vivo; ergo, só rabisco ambos.
Eu troquei, num assomo de otimismo, o nunca diga nunca por sempre diga sempre. E fiquei pensando se tivesse dito num assombro de pessimismo...
Eu odeio quando enfiam o folclore pela cultura.
Eu raramente tenho taquicardias cardíacas.
Eu sou mais lento que meus calcanhares.
Eu, quando fumo, a fogo apago o ócio, ou afago?
Eu, quando cresci, passei a querer ser vidanauta quando crescer.
Eu tenho as extremidades do corpo não condizentes com o resto. Inclusive a mente.
Eu passei a infância numa geografia dita Depressão Periférica. Hoje já sou cosmopolita nessa área; vivo no Centro dela.
Eu imagino a palavra Patagônia como um poema de mau gosto; vejo uma marreca moribunda.
Eu sei, arrá!, que o sangue de mosca é também vermelho.