segunda-feira, 30 de julho de 2007

O Rabo do Cavalo

Uma história de rabo de cavalo começa assim. Ou, ainda, não começa, por não ter fim. Mas, vá lá: o lado de início, já que temos de iniciar até as coisas sem começo, fica à escolha do leitor, direito ou esquerdo.

Neste -suposto primeiro- lado, uma cócegazinha pousa em mínimo turbilhão. E a lambada do rabo do cavalo chispa ela dali.

Ainda antes de consumada aquela coceirazinha aliviada de pós cócegas, o sistema nervoso do rabo do cavalo -e o rabo tem também consciência autônoma, senão sentimentos próprios! - já prepara a chicotada oposta: do outro lado, uma ou outras cócegas mínimas vibram a impaciência do cavalo do rabo.

Aí está, pois, o moto-contínuo do rabo do cavalo.

Esta história, já bem ou mal iniciada, tem um problema: a súbita necessidade de um objetivo que vá além do simples rabo, envolva o homem. São aquelas vozezinhas sobre os ombros, que freqüentemente encabulam os ditos livres pensadores.

O humano, mantenedor de sua dominação sobre o animal, agora, no seu narcisismo, me chama a enfiá-lo, à força, nesta simples historinha de rabo de cavalo, como se fosse sacrilégio ou divagação um texto de bicho sem sua inclusão, magnânimo.

Então, sou obrigado a inventar uma função de metáfora pro rabo do cavalo... Que vergonha!

Ah, se eu tivesse um rabo na testa, consciente e autônomo como o do cavalo! Meus ombros não ficariam livres das cócegas, mas minhas coceiras aliviadas, entre cada lambada precisa nas vozezinhas, seriam bem mais reconfortantes que as do cavalo…

E talvez não tivesse sempre a tentação de enfiar a cara humana (quando falo) na bunda do cavalo.

O e Umas

O e Uma 1

O e Outro beberão éter no encosto do Santuário, desjeitando-se dos enjeitados santos do lugar, até etéreos. Haverá jogo a assistir. Jogo de bola, gamões de devaneio supratrigonométricos. Esta noite, jogarão pouco, pois mais o éter.

Findouras eras de encosto de O e Outro, já auvorando vapores de fora lá fora, de fora adentrarão duas entidades, uma é Outra e outra é a tal Uma. A primeira instigará substância repelente dos sistemas sudoríparos de O e de Outro. Com catequeses de hálito babento de incongruências hormonais e ideais, grande fuínha pequena de cristas em mola, vã faladora de impropérios babosos, que a Outro surtiria apenas como outro representante dos enjeitados do Santuário, para ele rãmisters, divãs, televisões a éter... Mas para O, a Outra pesaria fardo, caldo grosso de cores gástricas, como marrom com beje...

Entre todo o interim, Uma galoparia por fora, extática na sua retraída epiderme de lagartixa parda, óculos retangulares e boca chamariz. - O: artigo estranhamente definido. O jogaria de mestre, evidenciaria-se nela como que pra pôr cabresto às cores estomacais no vidro déter dOutra ao lado. E nela, nUma, auvoraria na sua torpez - porque este torpor seria feminino, lagartixo - neste fim de era no Santuário. Assim O decidiria. E assim decidirou.

O e Uma trocariam orações: ela evocando seu cristo toxômano, que se expulsou da cruz, desperpendicularizando os eixos da sua cruz; ele evocando sua deusa morta, que o expulsou do paraíso, dando a ele só uma maçã carocenta, e lhe renegando a árvore do saber doía. Simples simbiose de O e Uma, mãos dadas na quedalivre pra trás.

Um pergaminho, já quase sem vida, tirar-se-ia da algibeira por Uma. Uma parte de um evangelho, já apócrifo, reescribido por ela e nunca remetido ao seu antecristo. Fora do Santuário, na sargeta às margens do rio com cágados enfileirados em seu leito, a carta falha seria declamada a O. Durante o recital, nostálgico e os autopesando-se, os dois marginais do rio damor forjariam lágrimas próprias, cada qual com seus métodos e crocodilagens: Uma choraria em compasso aos versos, entonação crescente, tão atonal na voz; O espremeria choro, suco de maçã, conhaque macieira, seqüestrando o odor das palavras doutrém pra sua dor.

De fora pra dentro, do estuário ao Santuário. Do sentimento exorto ao sedimento encosto. E brindariam-se em tims de éter, e relanceariam algumas visões enfunadas de vapor dos jogadores ao redor, só durante curto tempo de goles. Como Outro ainda carteava Outra com seus enjeitos: um beijo entre Uma e O.

Nada mais veriam, a comunhão dos quedistas se daria em tato. Luxúria. O e Uma se coçariam de contrafome, sacrilegando o Santuário, que se ungiria do sacramento pré-gozo. Roçariam as anatomias por mais algumas eras dentro do final daquela. Até saírem à alvorada fora, benzendo transeuntes com seu ininterrupto ritual de fricções.

Na morada de O: na antecâmara, fricções ainda sobéter. No umbral da alcova, Uma surpreenderia-se com o leito: É uma maca! E na maca, Uma já galoparia por dentro. Pelemente, línguamente. Não haveria clímax, só vários. Só gozos secos, de éter. Uma e O escorreriam secos da maca em devaneio. Não findaria em água, café ou cigarro aquela era dO e dUma.

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O e Uma 2

Uma canta. Uma desproporção esquisita de tórax e anca tem esta Uma, comenta O a Outro às costas dUma numa mesa ao pé do encosto do Santuário, numa noite daquelas benévolas benévoas benéteres. A fina polpinha das batatas das pernas comentam-se até os estirados palitos de aquiles e os caracóizinhos-colméia abundam, e até a boca tortinha prum lado no rosto fino e bonito desta Uma pequena, comentam-se, em saltos acrílicos, luzidíos mognozinhos amarelados que sobem deles à anca desproporcional com tórax e face bonita em cachos em cesto, que canta.

Na próxima benoite daquelas, o Santuário já mais torpe em O, o jogo pândego misturando cores, a Uma beija o O.

Os beijos entregalhofam-se enquanto o jogo. O arrasta aquilo com levinhos soprinhos de éter pra que o que cresce, a noite torpeando, o sol já esteando, o tabuleiro desdimensionando, cópulas das cores, linhas estrábicas em negligentes regras no jogo, cópulos desenchendo cúpulas jáfogando. É tudo leviano ali no Santuário dos enjeitados naquela noite daquela.

De lá para na morada de O: nantecâmara afogando os cabelos a O. E numbral dalcova: Uma: maca! E o leito se deita no chão ansioso de desproporcionar-se na pele escuraclara de Uma nO. Uma é animal misto, de couro e lã, marromcombeje e xis, é lontra com aranhanã. - O: artigo estranhamente masculino.

O e Uma se coitam em todos os bichos, se nicham em toda volúpia esportiva, que um O e uma Uma podem se competir sem perder senão o regulamento. Uma maratona O. O deu café e cigarro a Uma e si desta feita.

Mas esta Uma impingiu-se duas: noutra noite daquelas malévolas malefeitas malemá: Numa delas, nantecâmara dO, quandO jazia em luz e fabricava hormônios estéreis em má sua companhia, Uma irrompe no umbral da morada e desanda em susto todo o sistema circulatório e circunflexório dO, que pula de putaquepariu, de fazeroquê, de entraíjáquetaí, de vamtomáchánacama. E de ditos a feitos e distos a istos: suicida asfixia em cabelos, puxafortemeucabeloqueugosto, batechamadevagabunda, prefironão, em tão me leca me. E o torneio de várzea rola a bola entre pernasdepau, findo o tempo regulamentar, faltéter, e o índio ainda quer apito, então tá, menina, então dá e pau vai comê. Agora não há torpez, ou por, não já café nem um cigarro: O aleita-se em repouso não fazendo Uma ver que não vê O não vendo os saltos translúcidos atarracharem-se aos aquiles de mogno e saírem prismar o sol naquela pósnoite banguela.

A Farpa

Um cavaco; filho do atrito. Uma nesga de pau; filha de podre. Aí ovulou mais um espírito atormentado; este, que agora renasce literado. João.

Até aqui, não merecia. Ainda não produzira alcalóides, hormônios, enzimas daquelas que alimentam espaços entre palavras. Até aqui, só leveza leve, beleza leve, pureza leve, natureza natural, bonita e pura. Que não costumam render literaturas.

Mas a farpa.

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João mantinha vida fácil. Daquelas facilidades de que carecem os desiludidos. Vinha petecando de leve alguma felicidade, se isto é palavra que se use. Trinta e dois anos, casado sem amor, ainda amuando; empregado sem dom, ainda domando; dois filhos sem paternidade. Comia rodelas de batata frita com TV, sustentando suspiros, porque sem amargura, adorando quedas de pescoço dos cochilos, porque nunca insone. Beijava a mulher na testa, os filhos nem; usava canetas até o fim, não arrotava.

Nesta tarde, acordou para o conto: percebeu a pequena queloide na lateral do dedo anular direito. Cicatriz minúscula; dos treze anos, concentrou lembrança. O batente do banheiro: passava a mão correndo, tangenciando a saída, toda vez; naquela, lascou-se a lasca no dedo, picada fugaz, como a lambida, e dezenove anos...

João, nesta tarde, morreu sua pureza. À luz um personagem. Mais um batman se carcomendo em devaneio.

Primeira manhã de sua vida, ralhou com a mulher pela missa na TV, domingo. Estalou dentes de ódio, depois da mosca tomada com café. Porém, só não poupou a si da pergunta que lhe oxidava as têmporas - palavras bem marcadas, como acompanhadas cada uma de uma abaixada ríspida de cabeça, de pisões silábicos enfatizando-as: Eu-Não-Dei-Nunca-A-Menor-Importância-Àquela-Farpa-Àquela-Porta-Àquela-Mão-Àquele-Banheiro. Aquilo-Não-Marcou-Minha-Vida. Por quê?!

Pronto, tá lá uma alma estendida no vão. No vão da porta do banheiro, vão do dedo de treze anos. Enfim, o vão; da vida, do João. O vão do verbo.

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Na página, João poderia acabar seu idílio vagando depósitos de entulho, demente, buscando o batente. Ou o contista jogaria trocadilhos do anular do dedo com o da vida, com elos partidos dalguma corrente psicológica; ou do batente com o trabalho. Talvez aludir a arquétipos de filho, ligando infância a paternidade; de casa, banheiro familiar: desarranjo doméstico. Sangue, mão, Freud, pós-modernidade, andropausa... Que tal enfoque fantástico, dadaísta, metafísico ou genético?

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Por favor, olhe suas mãos.

Fábrica de loucos

Num certo sábado, onze da manhã, Lúcia descia a avenida pequena da cidade, desviando olhares de réstias muito quentes de fins de primavera no capô do carro, ia à casa da mãe pegar algum objeto esquecido de véspera, viu Esther na calçada em sentido contrário. Muito amigas. Trabalharam juntas por anos, agora viam-se de passagem, como desta, ou no supermercado, talvez nalguma noite de sábado. Lúcia levantou o quebra-sol do pára-brisa olhos miúdos, em banguela na descida. Sua munheca firme no cumprimento à amiga, coisa rotineira um aceno. Peito colado no volante, e Esther não viu.

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Maneco Afonso criava pombos. Não eram dos correio, eram pombos desorientados mesmo daqueles de igreja, apócrifos em gaiolas num barracão no quintal. Ele mantinha a rotina de cada sábado comprar milho em espigas no armazém da rua de baixo do Quintino. Pombos, milho, pito do Maneco, palha, sabugos, garrafão. Num certo sábado, era inverno não confundir, Quintino mandou essa: Seu Maneco, não tem milho. Entresafra coisa e tal, agora só milho saquinho e de pipoca. Maneco Afonso de ombros, Êta vida!

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Chamavam de Negão ele regozijava, sua mãe foi uma cadela que dormiu na sacristia do padre Amâncio até o fim da vida. Padre Amâncio cuidou da gravidez e do parto, enterrou seus três irmãos no quintal da igreja, mas não podia ficar com ele, já estava velho e reclamavam do Negão ali na santa casa. Negão foi pra rua, andarilhava por toda a cidade, sempre recebendo afeto e restos de comida, até passavam a mão nas suas orelhas. Era onipresente em muitos lugares estratégicos. O bar do João, armazém do Quintino, fim de missa, a praça. Tinha sarna, mas não ligava: Coçar é essencial a cachorros, auto-afirmava-se. Num... outro sábado, as coisas nessas cidades do interior são meio monótonas, levou um teco de cachorro-quente no focinho, sempre adorara isso. Mas sobrancelhas em riste: embrulhou-se-lhe o estômago: Salsicha cortada ao meio com mostarda, pão molhado... ai.

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Tamborilava na mesa de alguém na calçada dum sábado à noite, como todas as noites, todas as mesas, e mandava: Eicucu cucucu! Era o Sempre Livre, o bebum da cidade, cuicando sua cuíca bucal e pedindo samba e cerveja às mesas. Todo mundo sabia, ria e negava. Mas naquele sábado, Estér na mesa mandou o Sempre Livre trabalhar, vagabundo. Ele calou a cuíca, olhou sério, vermelho sumiu da cidade. Foi absorvido pela liberdade de um momento inédito, chamou-se então Lucas. Hoje, Lucas vende chapéus na Praia Grande.

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Negão desiludiu na porta grande da igreja. Ali está até hoje sarnando-se, cabeça pra cá comida que o padre dava, cabeça pra lá água que o padre punha. Aperta pra cá que hoje é missa, práli que alguém casa, mas já rareando esses incômodos. Pouca gente casava e missa só dia santo. Padre Amâncio doeu coração pela mãe do Negão, não olhava fixo em mais nada, alheio à batina, genuflexório tinha rotina desde então. Cartas do bispo amontoam-se da mesa, paróquia deserdada. Também ninguém nem vai, só cultos internos agora nas casas da cidade. Água benta estragou com sal.

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Quintino come pipoca. E tudo mais do armazém, fechado. Nem vê o livro das pinduras de pé dependurado no prego do balcão. Abateu-se nele algo morto, só gosta agora da cor do latão da porta à básculo da quitanda por dentro, e chora. Pelos pombos, pena. Do Maneco Afonso sem espiga, que soltaram-se das gaiolas, mas ainda lá, presos libertos, ou vice-versa com as portinholas abertas. O dono dá restos de comida, arroz feijão e imita seus ronronares no quintal sem fumar.

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Lúcia mora agora com a mãe esquecida da véspera. Nunca passa um dia sem lembrar de Esther, Será que ela não viu?

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Ela subia a avenida da cidade pequena pisa-não-pisa com os buracos da calçada. Estava quente de sol metal, quando viu a réstia do carro da Lúcia que passava pelo seu ombro e não a viu, tropeçou. Esther se virou para espiar se ainda restava-lhe ao menos um retrovisor, mas a amiga cabeça baixa na banguela da descida. Nunca mais saiu nos sábados, ou em outro dia de primavera, ou em nunca mais. Como pôde aquela zinha!, mastiga agora no sofá.

A Fome

A fome. Famélico, morrera de fome, o homem, na beira do prato, lambuzado de tentar de lábios costurados. Nesse último momento, foi feliz, apesar. Enfim, o que apanhava de mãos cheias e, lambão, levava ao rosto, empastando a cara toda - com a violência extasiada de quem o faz com água achada, perdido no mato sedento -, enfim aquela era sua comida.

Comeu, então, contente de boca fechada, comeu com tato e devoção a primeira e nenhuma refeição de sua longa vida magra.

Sempre teve fome, o homem. Tanto que sua débil busca por comida sempre foi ficando mais atordoada conforme a inanição crescia e os pratos que achava, recheios de vazio.

Tudo que alcançava roncando de esforço, seu estômago recusava, rejeitava de impropriedade nutricional. Não eram comida pra ele aqueles pratos escavados - ou deixados ali por boas almas -, alheios de seu teor, encontrados aos cacos nos cantos do labirinto em que se achou, desde sempre, minotauro de pés de homem e cabeça flâmula vermelha aos próprios chifres.

Sempre teve fome. E morrera assim, empanzinado com seu bocado de ilusões achadas, que comia por fora, a morrer de fome, o homem.

Busca ao Pente Fino ou Galinhas Não Têm Esporas

Frederico criava galinhas renascentistas no topo de sua cabeça; ciscando nos tufos pretos e, hora ou outra, perfurando gêiseres no coco para colherem o plasma que as auxiliava na regurgitação dos grãos de milho apanhados esporadicamente quando chovia, elas se atronavam como rainhas na coroa macia do bobo.

Frederico tinha temperamento de filhote felino em casa fechada, pulava de uma atenção para outra, susto para outro, sempre entretido nas diversas concentrações concomitantes, e sempre disposto às alheidades que o borbulhavam para as próximas. Vez em quando, atendia às reprimendas dos céfalo-bicos, que urgiam por um penteado personalizado, frente a espelho, cacarejando ordens, a ele titicas de ordem psicopatológica, desordenadas, mas que lhe pesavam na cabeça e no terreiro social partilhado com o resto das gentes.

Atendia, na ânsia de encontrar uma configuração própria e definitiva para o ninho das galinhas, mesmo estando cansado das tentativas e consecutivas esporadas no coco calejado; porém, sempre usava pentes de dentes muito grossos ou fixadores instantâneos muito instantâneos ou espelhos pouco realistas.

Pronto, primeira brisa mais forte e penas voavam e esporas laceravam sua testa, já cuesta de quelóides. Então, encenava frustradas tentativas de vôo de galinha, evasões de pato, gritos de marreco suicida. Punha-se no poleiro e fechava o bico, esperando alguma garoa para entreter as poedeiras estéreis com respingos de milho, enquanto ele pipocasse idéias caóticas para a próxima investida ao pente.

Frederico criava galinhas modernistas no topo de sua cabeça. Ávidas por um ninho pessoal que atraísse galos de crina verde que as fecundassem seus óvulos murchos que brotassem colombos de duas gemas que em riste dessem piados de ornitorrinco que conquistassem índias puras que deglutissem Frederico e o parissem de cócoras.

Frederico construiu um guarda-chuva para restringir os grãos do céu às galinhas. Previa a revoada natural de quem passa fome, para, coco nu, lustrar sua cabeça pelada e tentar seu brilho próprio. Mas as galinhas retirantes deixaram na moringa suas penas plantadas. Ele, sentindo algo como um alívio apreensivo, uma saciedade sedenta, barriga cheia de vermes, frente ao espelho, embaçado como se depois de um longo banho em lodo morno, desesperou-se ao ver sua cabaça rachar-se em aridez, as penas cada vez maiores por entre as fendas, couro esturricar-se às macroondas do sol da vida das gentes. Correu, galinha diante do automóvel, correu, exaustando-se nos passos bípedes, parando, parando, imobilizando-se num poleiro público com um pé só.

Frederico criava galinhas humanistas no topo de sua cabeça. Agora, imigrante aborígene, dança em círculo, sabugo, a clamar pela tempestade de grãos de milho verde, que afogará toda gente e trará suas galinhas, sem pena, devolta a esporá-lo por um pente fino.

LAO

Eu bato em moscas sempre de dedos abertos. São cinco dedos para quatro vãos. E é por esses que elas sempre se vão.
Eu me concentro pelas bordas. Tenho de ter as unhas sempre cortadas, senão não sou eu quem as roe, mas o contrário: cavoco a cabeça por fora, como se assim pudera aerá-la dentro.
Eu preciso dar um passo irreversível: conseguir dar passos irreversíveis.
Eu gostaria de escrever para viver; mas escrevo melhor o que vivo; ergo, só rabisco ambos.
Eu troquei, num assomo de otimismo, o nunca diga nunca por sempre diga sempre. E fiquei pensando se tivesse dito num assombro de pessimismo...
Eu odeio quando enfiam o folclore pela cultura.
Eu raramente tenho taquicardias cardíacas.
Eu sou mais lento que meus calcanhares.
Eu, quando fumo, a fogo apago o ócio, ou afago?
Eu, quando cresci, passei a querer ser vidanauta quando crescer.
Eu tenho as extremidades do corpo não condizentes com o resto. Inclusive a mente.
Eu passei a infância numa geografia dita Depressão Periférica. Hoje já sou cosmopolita nessa área; vivo no Centro dela.
Eu imagino a palavra Patagônia como um poema de mau gosto; vejo uma marreca moribunda.
Eu sei, arrá!, que o sangue de mosca é também vermelho.

Homérica Latrina

Novela

vi o lento
matraquear do telejornal;
depois,
vi-me vendo, feito bambu
da família dos chorões,
arqueado sob o eco, a dor,
o novelo capitular
da homérica latrina.


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Gruta fresca untada a gordura vegetalhidrogenada.
Jukebox de margens vermelhas do néon que chia.
Tripa de mico curada a solstício em vaselina seca.
Galho de ébano sem casca marenado por quarenta tardes em azeite já curtido com cogumelos e salsa.



Taquara verde cobre o gringo do sol das quatro e através de uma chapa têxtil, grossa mas flexível, a humana pila a erva em uma tábua com fendas talhadas a cobre pelo dono da caverna. O visco substancioso capilariza os sulcos, nivelados em aclive de dois dedos dos dez da humana, concentrados na prensa da erva na base, e sobe até a extremidade, gotejando numa pilastra vertical de pau com uns setenta centímetros de altura. Enquanto o suco grosso escorre reticente como parafina em vela lenta pelos lados do toco abaixo, para depositar-se como lava amarela na bacia de cabaça, uma sua parte agrupa-se num lodo translúcido, quase indeciso entre a rigidez irremediável e a solvência quente dos que derretem, no topo do cilindro de galho morto.

O gringo levanta-se da malha feita de fibras, encolhe-se no umbral da porta, torneada com alguma estética entre hieroglífica e arabesca e artnouveau, franze as lombadas da testa e cospe na areia fofa do chão da caverna. Conduz o olhar à humana e grita provérbios de sua terra aos engasgues.

"Steih gdeo tho rival ape mi woldr bost dan rer colonission bests, quenai quiu ãs bai de tchubi de creite possessessixam incoscisentch...!"

"Não, Dotô, né feitiço não. E, se o sinhô num se importá, num cospe aí no chão da gente que as criança pisa. Discurpa a franqueza, mai cuspe de estrangero que nem o sinhô dá a pió das maleita nos fio de pobre! Mai o dotô queria sabê que qué isso que eu tô socand'aqui, num é? Né feitiço não, é "mé-de-invitá-oio-gordo". Essa foia aqui é de pé-de-manunleva, uma prantinha cherosa que dá ali nas marge do Rio Sã. Depoi de bem socadinha, vira essa baba marela. O tanto que gruda no toco nóis raspa e passa nas mão, nos pé e nos baguinho dos minino-home, quando nasce, qué pr'eles num criá unha de águia nas mão, sabê pulá os cuspe da maleita e privini que o capeta num dê cria no meio de nóis. Já o tanto mai ralo que escorre na cuia, nóis dexamo apurá, misturado cum áua, no relento de duas noite calorenta e depoi usamo pra pingá nos óio, esfregá nos peito e lavá as cabeça de todo mundo nos quatro primero dia do mêis do inverno, quano é co capeta cria força pra atazaná nosso mundo aqui dos humano."

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"Meidei, meidei! Nossos asas no suportam, nossos asas no suportam, mai capitam! prshhhhh! Biguedil-fór-sévem chamandou Greitearrentinoumanzana! Biguedil-tri-for-sics chamandou Greitearrentinoumanzana! prshhhhh! Meidei!"

Três cadáveres gringos e o quarto geme, abrindo as pálpebras para as lanças de luz, às quais os galhos mais altos permitiam passagem e as dirigiam metodicamente para surpreender as retinas embaçadas do náufrago da rain forest. O mapa molhado Biodiversityland escuda a visão e o gringo pode perceber a aproximação dos dois humanos com as lanças em riste. Ágil como nunca se viu, ele salta dentre os restos da sua águia 4-7, desmembrada sobre o pavimento biológico fofo do pé das árvores, e assume a postura de um atleta após o tiro, sai correndo sem olhar para trás, aqueles humanos nus sob trapos de shorts adidas, aquelas expressões canibalescas dos aborígenes que devoraríam-no...

Um papagaio grita, sobre a carnaúba: "Atenção! Rain Forest, rain!"

O Grilo

Acordei parado. Não sei por quê, estático - numa atonicidade daquelas daqueles sonhos intranqüilos. Um barulho abafado, distante mas onipresente, me senti um trilho, ou antes uma sua molécula apenas, se o trem estivera ainda longe mas já dentro de mim. E, como o trilho, mas sem sua calma empírica, eu paralisado naquela balbúrdia envolvente, ignorante, parado, arregalado como aos primeiros indícios de um terremoto, ainda sem atinar se desastre natural ou juízo final.

Comecei a ser bombardeado. Aquelas bombas, bolas de um mercúrio translúcido, viscoso, umas do tamanho da minha cabeça, atingindo meu corpo, maculando-o com seu peso e visco, coziam-no aonde caíam, eram quentes as bombas. Grudaram-me ainda mais na minha estatez, que eu queria vencida, extrapolada pela força do assombro, desejava, mais que tudo, um movimento, ao menos mudar a posição, me mexer milímetros, obrigar aquele meu jazigo de superfície, aquela mortalha adesiva, a se adaptar a mim em novo ângulo, a saber que não capitulo sem luta, a mínima luta de um derradeiro passo ao lado. Passo dado, fim de forças, bandeira branca, sou todo seu, poderosa névoa grossa, que começa agora a apagar minha alma, que nunca precisei provar à existência. Desintegra-me nessa sua câmara hiper-bárica com que me toma todo, atrofia minhas asas, assa-me a essência, catatoniza-me, fossiliza meu corpo para seu deleite, úmida força estranha!

Entreguei-me, assim rude, herético... Fui castigado, pela inexorável mania de punição das divindades onipotentes: violenta, uma massa de vento quente me arrebatou daquele claustro colante a céu aberto, me extirpou da minha raiva autopiedosa e sacrílega. Fui arremessado contra a parede de vidro e caí, vazio de vida, estanque.

Agora, sou objeto paralítico, múmia e mártir, em decúbito eterno. Morto no mesmo lugar, agora frio e seco, abandonado pela Providência alienígena que me sacrificou à revelia.

Acho, porém, que ainda sonho aqueles sonhos intranqüilos.

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Ele foi tomar banho. Não gostava de tomar banho de manhã logo que acordava. Ou melhor, não gostava de ir tomar banho logo que acordava. Depois de lá dentro, era bom, o solzinho na janela, a névoa do vapor amarelo, aquela sensação de bom dia, dia... O respeito que se conferia com o banho da manhã, um ar de responsabilidade, de cúmplice ao trabalho dos justos, a auto-aceitação social, sem a culpa das olheiras ao meio-dia, do cigarro café-da-manhã. Até iria à padaria, até fumaria, íntegro, à espera, na calçada, com a vizinha de xale, comentando os acho que vai esquentar mais tarde, a balconista sonolenta, preguiçosa!, levantar a porta da padaria, às sete da manhã. Compraria pães e leite, até tomaria um café com os aposentados de colete, comentando as pesquisas eleitorais do jornal ainda morno, com ares de aposentado aos 30 anos, íntegro, cúmplice, responsável, de banho tomado e olhos despertos para o dia de branco. Em casa, coaria café, tomaria com leite e cigarro na varanda, esperando o meio-dia pra sair andando rápido, horário de almoço, no ritmo dos justos, até o prato-feito da esquina. Comeria sem pressa, até as duas, apagando o cigarro no resto do suco de laranja no copo de plástico, apenas preocupado em sair antes que o japonês comece a baixar as portas do horário de almoço.

Pelado no box, esse chuveiro!, girou a torneira e nada, até um estalo e o jorro forte de água fria. Tem que ir fechando devagar pra ir esquentando, o pior momento, os pingos frios antes do banho redentor da manhã. Se esquenta muito, tem que abrir até o estalo e adiar a redenção por mais alguns pingos frios. Já redento, sem pressa, já matutino, ele pegou o frasco de xampu anti-caspa no rebordo da janela. E esse bichinho aí?, não sei como dá tanto bicho nesse banheiro, esses bichos acho que gostam da umidade, sei lá, algum tipo de atração instintiva, o calor úmido, as florestas tropicais, já que a vida começou na água, acho que eles vem pra cá, buscar as origens. Um bichinho pequeno, um grilinho morto grudado na umidade do azulejo, um ser que parece que está mais próximo do início das coisas, já que somos já evoluídos, já macacos e girinos, sei lá.

Ele deixou o xampu agir na cabeça, tem que repetir a operação para melhores resultados, e pensa como é o tamanho dos pinguinhos que respingam do seu ombro no grilo, para o grilo, já que suas proporções são desproporcionais à água, igual a gel, aquelas bolotas de água dos astronautas, bolhas que parecem o mercúrio do termômetro quebrado, aquele cara do Exterminador do Futuro; capilaridade, é isso! aqueles tubinhos do professor de física, a borda do copo que não deixa a água cair até certo ponto, fica até uma cúpula de água. E aquelas aranhas que andam na água, no documentário, como se tivesse uma nata na água do lago...

Ele esqueceu rápido que já estava percebendo que já estava no banho faz tempo, quando viu o grilinho dar um pulinho pro lado, todo melecado de capilaridade. Nossa, tá vivo, coitado. Ele nem pisa em formigas, tem arroubos de ecologista, e tentou salvar o bichinho, já seu protegido. Deu um assoprão de leve, só pra ele se virar e sair da água. Funcionou, o bicho bateu no vidro da janela e caiu no seco. Atitude orgulhosa do salvamento do seu semelhante, já que todos somos iguais na presença da força da natureza, já que ele tinha vergonha de falar deus, já que era agnóstico pra essas coisas de religião.

Ele saiu de toalha e deu uma deitadinha antes da padaria. Acabou deixando-se sonhar até o meio-dia, uns sonhos bem tranqüilos, o sono dos justos.

Ginga de Nós

O carteiro queixa incômodo em levar cartas sempre e invariavelmente para aquele tanto de casas, naquelas mesmas ruas-trilhos, a ordem dos números, rotina ordinária; pois bem, trocou-se seu itinerário, novas ruas-trilhos, nova ordem.

O carteiro queixa prisão ao lavar os olhos antes de acordar, sufocado em seu roteiro a seguir; pois bem, delegou-se a ele total liberdade de escolha no que se referisse a percursos, horários, ordem de casas, ordem de ruas, que cartas ia carregar e tal. Título de correspondente livre-arbitrário no crachá, o carteiro queixa-se ao agachar aos cadarços soltos, no meio de uma rua arbitrária. Queria trazer cartas com mais que de-tal-para-tal, o selinho à direita, o vê do envelope, os venho-por-meio-desta, prezado-senhor, atenciosamente; queria entregar coisas coloridas, objetos radiantes, mensagens telepáticas, intercambiar êxtases, ou algo assim de profundidade e leveza em alguma realidade ultra-lúdica de ações espontâneas com justificação instantânea, ou algo qualquer, de realização e utilidade arbitrárias.

Pois bem, apertou-se o cadarço e o pé do carteiro foi memorizando os paralelepípedos da rua-tal; pela ordem.

Uma vida

No varal, tudo cinza, meias, camisetas, cuecas, calças cinzas. No mais, cinzas. Cinzas eram seu presente e futuro, pontilhados apenas por alguns grãos de cor, sem passar do ocre, que, à pressão do segurar-se vivo, vinham migrados do seu passado, óbvio, cinza.

A cabeça era dioturnamente amoitada sob a cúpula preta do chapéu, que permitia vazar lapsos de olhos, já devidamente obstruídos pelos aros de vidro. Dentro, velocidade sistemática, inteligência minuciosa e auto-defensiva. O mais, escondido, defeso.

Radiante, êxtase, pé-no-chão, não se qualificavam nele, nem ele permitia tal dislexia semântica com seu ser.

Um dia morreu. E, no mais, o cadáver inflou-se de paz, até que enfim. Gozou, prostrado na evidência última do colorido dos vermes.

Após Roteiro Drive

Vem pronto o filme.
Agora o drama acorda o sonho.
Vê-se vendo.


Ao ser tocado pela visão - a boca, a palidez, o movimento dos cabelos num vento insípido, a barreira-flâmula de papel-parede sob o queixo -, sua displicência e calma ignorante não deixarão de lhe causar espanto e um bem-estar dissimulado, que também sente ao inquirir sem palavras, e talvez involuntariamente, pelo gozo daquela adoração serena, sobre a sua salvação àquela aparição gélida e sedutora. Em resposta, ela profere excepcionalmente em prosódia simples: "Olha o espelho e diz seu nome ao contrário"... Novamente ele verá flashes do seu rosto na cama de olhos fechados, abertos, ansiosos, fechados, andando, abertos ansiosos, e aquela ordem, aquela sentença, como que instigante irrecusável, também piscará num encadeamento nebuloso de desespero e apreensão, que o leva a cumpri-la em frente ao espelho, como ação instintiva pela crença na abstração de um conforto imediato. Seu reflexo aparecerá não e pelos seus olhos no espelho frio; numa tentativa de se redimir, e ainda em meio às aparições azuis da mulher salvadora, diz, acompanhando todos os movimentos de suas faces, que porém não se relacionam como imagem/reflexo, numa falsa simultaneidade, dando a impressão de outros fonemas na sua boca do espelho, que, a cada sílaba, menos se mostrará familiarmente sua: "RRO-BU"...

Pavor invade e invadirá toda a sua lucidez nesse momento de pavor. Os flashes piscando, agora não somente a mulher azul e toda a sua necessidade em obedecê-la torpe, mas também o reflexo mudo tão estranho, personificando-o mais frio e cinza e diferentemente arrogante e independente no plano da profundidade cinza, assolam sua frágil consciência nesses momentos de assombro e frenesi cinzas - e talvez noutros futuros.

Ele sabe que aquela será e é sua maior ameaça e, questionando-se sobre a credibilidade do seu anjo azul, não deixa de esboçar certo desapontamento de frustração doída e irreparável.

Medo e fuga se seguirão aos seus olhos em contemplação alucinável da sua sonolência à terror e avidez pela evasão inconseqüente que verá atormentado. Desvia-se de tudo que era nebuloso-azul-cinzento, como que renegando aquilo, aquele cenário fantasmagórico e de familiaridade estranha, a um espaço menor no seu pânico; corre pelo hall/escada/sala/cozinha, saindo do quarto numa visão entrecortada, facetada como um slide da surpreendente também azul gradação da sua histérica correria... cinza. Passa pela porta do quarto que nem vê e o hall transposto numa curva alucinada, que parecerá uma pausa de desespero, é esquecido escada acima; num trote sobre os degraus amarelos, porém apagados na mesma atmosfera embaçada, vence o primeiro lance de escadas, e o segundo, chegando à sala. Vê seu pai dizendo palavras que a ele lhe parecem ininteligíveis, mas sabe que são apenas banalidades mudas; ao passar por ele e a sala, sempre correndo em meio às falhas do tempo do slide, entra na cozinha e cruza com sua mãe dirigindo-se a ele com mais banalidades ignoráveis, que ignora, tentando porém disfarçar todo o seu medo, assim como fizera com o pai, com gestos avulsos em mímica vulgar e descoordenados; passa por todos, e, de súbito, toda aquela epopéia da fuga do medo maior toma forma também de coisa menor e esquecível no fundo da nova ansiedade, que lhe vem numa excitada sensação de irremediável e definitiva esperança segura...

Apagado, assim, o espaço à sua volta, e transformadas sua percepção e sensação, de velocidade e desespero em velocidade e precisão, pode então atender com certo alívio a seu instinto, universal e momentaneamente remediador: extrema necessidade de se ver em frente ao espelho novamente e se salvar.

Nova correria igual mas menos detalhada ou descrita em seu percurso e mais louca e impetuosamente correra; corre pelas escadas acima e verá lâminas de realidade embaçada cortarem-lhe os perfis como painéis-mosaicos, paredes de um túnel leitoso e fragmentário lançando-se para trás de um trem que segue sua linha para o seu fim, e vai rápido pensando e repetindo: "é só dizer... é só falar de novo... que tudo passa... eu tenho de dizer, lá...". Segue assim, no que é uma imediata passagem para a salvação, tão rápida, conturbada e densa, mas instantânea, e que parecerá contudo uma jornada idílica, conturbada e densa, para a última cartada infalível e a salvação...

Agora vê seu rosto seu, no espelho de novo, no escuro, um pouco azul; sua ansiedade é a maior; não pensa, diz, ver-se-á dizendo, como um suspiro: "BURRO"...; todo o flashback pisca; azul, preto, cinza, branco, olhos, lábios, azul, pisca; leveza, branco, alívio, paz, apreensão, pouco, luz, água; claro, pálpebras, chuva na janela...

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Cor; verá um cubículo com clarabóia, de arquitetura velha, estreito, resultante de uma antiga reforma, na qual lhe tiraram a qualidade de banheiro para - com agora só uma porta lacrada, uma parede limbosa e duas janelas como suas quatro faces, cobertas à meia altura por azulejos amarelados - darem-lhe a oportunidade de assistir e sentir a chuva e a agitação dos olhos, numa das janelas, extasiados.